Dividir a dívida por 60 não fecha o plano de superendividamento
Com saldo de R$ 80 mil, correção e juros de 2,5% ao mês, 55 parcelas de R$ 1.454,55 terminam o prazo com saldo de R$ 248.614,77. A parcela que fecha a conta é de R$ 3.357,61. A matemática do art. 104-B, § 4º, do CDC.
Por André Mendes · CRC-MG 128523/O · CNPI 8740
O art. 104-B, § 4º, do CDC pede três coisas ao plano compulsório: que assegure aos credores ao menos o principal corrigido monetariamente, que liquide a dívida em no máximo cinco anos e que o faça em parcelas mensais iguais, a primeira em até 180 dias da homologação. Dividir o saldo pelo número de parcelas atende ao terceiro comando. A pergunta é se atende aos outros dois.
Uso um exemplo didático: saldo de R$ 80.000,00 na homologação, correção monetária de 4,5% ao ano (0,3675% ao mês) e primeira parcela no mês 6. Lendo os cinco anos a partir da homologação, são 55 parcelas. A divisão simples dá R$ 1.454,55.
O que a divisão simples supõe
Dividir supõe que o saldo não se move durante o plano. Isso só vale se nada incide sobre ele, ou se a própria parcela é corrigida pelo mesmo índice. O que incide é decisão do juízo, e organizo as possibilidades em três regimes:
| Regime | O que incide sobre o saldo |
|---|---|
| R1, saldo nominal | Nada (só faz sentido com inflação zero) |
| R2, piso legal | Correção monetária por índice oficial |
| R3, saldo com encargos | Correção e juros remuneratórios |
No piso legal (R2)
Com correção e sem juros, a parcela de R$ 1.454,55 funciona se for corrigida todo mês. Fixada em reais, o devedor paga tudo em dia e termina o prazo devendo R$ 11.216,08. A parcela nominal que fecha a conta, pela Tabela Price à taxa de correção, é de R$ 1.638,93. O laudo precisa dizer qual das duas formas usou.
Com juros (R3)
Aqui a carência pesa sozinha. Com correção mais 2,5% ao mês, os cinco meses sem pagamento levam o saldo de R$ 80.000,00 para R$ 92.188,01, 15% a mais antes da primeira parcela.
| Regime | Juros do mês 6 | Parcela simples | Saldo no mês 60, tudo pago em dia |
|---|---|---|---|
| R2, só correção (parcela fixa) | 299,43 | 1.454,55 | 11.216,08 |
| R3, correção + 1,0% a.m. | 1.174,22 | 1.454,55 | 62.843,21 |
| R3, correção + 2,5% a.m. | 2.651,94 | 1.454,55 | 248.614,77 |
Na última linha, a parcela não cobre os juros do primeiro mês de pagamento. O que falta vai para o saldo, que rende juros no mês seguinte, que a parcela também não cobre. É a amortização negativa: ao fim das 55 parcelas, o saldo é pouco mais que o triplo do inicial.
O limiar
Existe uma taxa em que os juros do mês 6 igualam a parcela simples. Acima dela, o saldo cresce desde o primeiro pagamento:
| Prazo | Parcela simples | Taxa mensal total no limiar | Juros além da correção |
|---|---|---|---|
| 55 parcelas | 1.454,55 | 1,6734% | 1,3011% |
| 60 parcelas | 1.333,33 | 1,5438% | 1,1720% |
O limiar não depende do valor da dívida, só do número de parcelas, da carência e da taxa. Uso como triagem: com carência de cinco meses, qualquer divisão simples sobre saldo com juros acima de 1,2% a 1,3% ao mês já começa crescendo.
A parcela que fecha a conta
É a da Tabela Price, calculada sobre o saldo capitalizado até o mês anterior à primeira parcela:
S = P × (1 + i)^(k − 1)
PMT = S × i ÷ [1 − (1 + i)^(−n)]
| Regime | Parcela (55x) | Parcela (60x) |
|---|---|---|
| R2, correção | 1.638,93 | 1.515,71 |
| R3, correção + 1,0% a.m. | 2.227,41 | 2.103,24 |
| R3, correção + 2,5% a.m. | 3.357,61 | 3.243,51 |
O erro pode ir para os dois lados. A divisão simples proposta pelo devedor subestima a parcela. Uma impugnação que calcule com a taxa original do contrato, sem a revisão do juízo, ou com juros de mora e multa que deveriam ter sido decotados, superestima a parcela e pode declarar inexequível um plano que cabe na renda.
O que pedir ao laudo
Um laudo que traz só a parcela pede ao juízo que confie na fórmula. Com a projeção mês a mês (juros, parcela, amortização e saldo), qualquer leitor confere que o saldo chega a zero. Os quesitos que revelam o problema são diretos: qual regime foi adotado; qual o saldo no mês anterior à primeira parcela; se a parcela supera os juros desse mês; e qual o saldo ao fim do prazo se tudo for pago em dia.
Perguntas frequentes
O que é amortização negativa no plano de superendividamento?
É quando a parcela é menor que os juros do mês. A diferença vai para o saldo, que rende mais juros no mês seguinte. O devedor paga em dia e a dívida cresce.
A partir de que taxa a divisão simples gera amortização negativa?
Com carência de cinco meses e 55 parcelas, quando a taxa mensal total passa de 1,6734% (juros de cerca de 1,30% ao mês além da correção). Com 60 parcelas, a partir de 1,5438%. O limiar não depende do valor da dívida.
Como se calcula a parcela correta do plano?
Pela Tabela Price, sobre o saldo capitalizado até o mês anterior à primeira parcela: PMT = S × i ÷ [1 − (1 + i)^(−n)]. A projeção mês a mês deve mostrar saldo zero na última parcela.