Como ler uma microficha do PASEP: SANT, SATU e os códigos de quatro dígitos
Datas sem separador, três blocos de lançamentos por linha, seis moedas e códigos sem descrição. O protocolo de leitura, um exemplo completo com dados fictícios e os quatro erros que produzem uma planilha que fecha e está errada.
Por André Mendes · CRC-MG 128523/O · CNPI 8740
Uma microficha do PASEP é a fotografia, em microfilme, de anos de movimentação de uma conta. O fundo costuma ser escuro e os caracteres, claros. As datas têm seis dígitos sem separador, os lançamentos vêm em três blocos lado a lado, os valores passam por seis padrões monetários do Cruzeiro ao Real, e o histórico de cada lançamento é só um código de quatro algarismos.
Entre essa imagem e a planilha de cálculo existe uma etapa que costuma ser pulada: a transcrição. E os erros dela não aparecem na conferência do cálculo. Um lançamento contado duas vezes ou um saque que não aconteceu produzem uma planilha que fecha, com o resultado errado desde a origem.
Os três formatos
| Formato | Período | O que muda |
|---|---|---|
| Tipo 1 | 1971 a 1975 | Saldo após cada lançamento, em quantidade de cotas, não em moeda |
| Tipo 2 | 1975 a 1981 | Três blocos por linha; começa no SANT e termina no SATU |
| Tipo 3 | 1981 a 1999 | Inclui órgão empregador e remuneração; cada microficha cobre dois ou três anos |
No Tipo 1, tomar o número de cotas como valor em cruzeiros invalida o saldo inicial de toda a série. O Tipo 3 é o do período das reformas monetárias e concentra a maior parte das verificações.
Como ler o bloco de movimentação
Cada lançamento tem data, histórico, agência, documento e valor. A leitura segue linha por linha, da esquerda para a direita: primeiro bloco, segundo, terceiro, e então a linha seguinte.
- Data em
DDMMAA:010786é 1º de julho de 1986. Créditos de valorização de julho correspondem ao exercício que fechou em 30 de junho. - Histórico é só o código. A descrição está na relação da cartilha do banco.
- Valor traz o sinal depois do número:
2.261,00-é débito. - Saldo só aparece no SANT e no SATU.
Um exemplo completo
A microficha abaixo usa dados fictícios no leiaute do Tipo 3, em cruzados:
| Data | Código | Valor | Saldo calculado | O que é |
|---|---|---|---|---|
| 300686 | SANT | 2.307,15 | 2.307,15 | Saldo de abertura |
| 010786 | 8006 | 3.062,41 | 5.369,56 | Valorização 1985/86 |
| 120886 | 8007 | 210,00 | 5.579,56 | Distribuição de cotas |
| 010787 | 8006 | 14.408,92 | 19.988,48 | Valorização 1986/87 |
| 120887 | 8007 | 210,00 | 20.198,48 | Distribuição de cotas |
| 200887 | 1010 | −150,00 | 20.048,48 | Abono via folha (FOPAG) |
| 010788 | 8006 | 80.303,60 | 100.352,08 | Valorização 1987/88 |
| 120888 | 8007 | 210,00 | 100.562,08 | Distribuição de cotas |
| 150988 | SATU | 100.562,08 | Fechamento confere |
Duas verificações saem daqui.
O fechamento. SANT mais todos os lançamentos dá 100.562,08, igual ao SATU impresso. É o teste de que a transcrição está completa. Se não fechar, há lançamento omitido, valor lido errado ou sinal trocado, e a microficha é relida antes de seguir.
A valorização. A alíquota aplicada é o crédito dividido pelo saldo imediatamente anterior, que a microficha não imprime: 3.062,41 ÷ 2.307,15 = 132,7356% (oficial de 1985/86: 132,7357%); 14.408,92 ÷ 5.579,56 = 258,2447% (oficial: 258,2448%); 80.303,60 ÷ 20.048,48 = 400,5471% (oficial: 400,5471%). As diferenças na quarta casa vêm do arredondamento dos centavos.
O débito 1010 é um repasse por folha. Entra no saldo e é classificado pela via de pagamento para fins do Tema 1.300.
Os quatro erros que a conta não acusa
- Lançamentos repetidos. As microfichas do Tipo 3 se sobrepõem, e o mesmo lançamento aparece em duas. Mesma data e mesmo código: conta-se uma vez. Contado duas vezes, o excesso se propaga por todos os exercícios seguintes, porque cada saldo final é a base do próximo.
- SANT confundido com SATU. Em impressões desgastadas as siglas se parecem. Tomar o SATU por saldo de abertura reinicia a série no ponto de chegada e apaga o percurso, inclusive as divergências.
- Autorização emitida tratada como saque. Os códigos com asterisco na cartilha, como
*4005(AS Emitida) e*4035(AS em Cesec), “não têm efeito na movimentação financeira”. Só a família AS Paga (4502a4509) deduz o saldo. E a AS emitida que não reaparece na microficha seguinte foi cancelada. - Moeda reexpressa. Uma microficha emitida depois de uma reforma pode trazer lançamentos antigos já divididos por 1.000. Uma queda de três ordens de grandeza sem saque que a explique é o sinal.
| Reforma | Data | Fator |
|---|---|---|
| Cr$ → Cz$ | 28/02/1986 | ÷ 1.000 |
| Cz$ → NCz$ | 16/01/1989 | ÷ 1.000 |
| NCz$ → Cr$ | 16/03/1990 | 1 : 1 |
| Cr$ → CR$ | 01/08/1993 | ÷ 1.000 |
| CR$ → R$ | 01/07/1994 | ÷ 2.750 |
E a inteligência artificial?
Ferramentas de OCR e modelos de visão extraem os lançamentos e entregam uma primeira tabela. Não seguem sozinhas a ordem de leitura por linha, não reconhecem repetições nem reexpressões de moeda e não respondem pelo resultado. O fechamento pelo SATU testa 100% dos lançamentos de cada microficha e é o controle que torna a transcrição assistida confiável. A certificação continua sendo do perito ou do assistente técnico, e o método precisa estar declarado no laudo.
Perguntas frequentes
O que significam SANT e SATU na microficha do PASEP?
SANT é o saldo anterior, que abre a microficha; SATU é o saldo atual, que a fecha. Nos formatos Tipo 2 e Tipo 3 são os únicos saldos impressos. O SANT somado a todos os lançamentos precisa resultar no SATU.
Por que o mesmo lançamento aparece em duas microfichas?
Cada microficha do Tipo 3 cobre dois ou três anos, e as janelas se sobrepõem. O lançamento repetido (mesma data e mesmo código) deve ser contado uma única vez.
Autorização de saque emitida reduz o saldo?
Não. Os códigos marcados com asterisco na cartilha do Banco do Brasil, como AS Emitida e AS em Cesec, não têm efeito na movimentação financeira. Só a família AS Paga deduz o valor do saldo.