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Dissolução societária06 de maio de 2026

O balanço que vai definir os haveres do seu cliente provavelmente está errado

Usar o balanço contábil em dissoluções societárias é um erro técnico caro. O ajuste a valor justo mostra o patrimônio que a empresa de fato tem.

Por André Mendes · CRC-MG 128523/O · CNPI 8740

Não por fraude. Por uma omissão técnica que ninguém teve interesse em corrigir, até o momento em que alguém resolve sair.

Já analisei laudos em que a diferença entre o valor contábil e o valor real do patrimônio passava de R$ 400 mil. Em empresas de médio porte. Com dois sócios. Onde ninguém era desonesto. O problema não era intenção. Era premissa.

A premissa é esta: o balanço contábil reflete o valor real do patrimônio da empresa. Não reflete. E entender por que muda completamente como você lê um processo de dissolução societária.

O balanço foi construído para outra pergunta

O balanço contábil responde a uma pergunta específica: o que esta empresa registrou, ao longo do tempo, seguindo princípios de consistência e comparabilidade?

É uma pergunta legítima. Para fins fiscais, para auditoria, para análise de tendência histórica, o balanço é a ferramenta certa. Mas a apuração de haveres responde a uma pergunta diferente: quanto vale, hoje, a participação real deste sócio neste patrimônio?

O balanço registra o passado. Haveres exigem o presente. É como usar o IPTU para vender seu apartamento: o documento é legítimo, a função é outra.

O que fica escondido nos números

Imagine a Metalúrgica Irmãos Fontes, empresa fictícia, mas com uma estrutura que aparece com frequência nos processos. Dois sócios, participação igual. Patrimônio líquido contábil de R$ 1.187.340. Um dos sócios decide sair. Pelo balanço, leva R$ 593.670. O acordo parece simples.

Mas o balanço da Metalúrgica Irmãos Fontes não passou por análise de ajuste. E quando passa, três coisas aparecem:

ItemRegistradoAjuste
Equipamentos: depreciação linear aplicada mecanicamente; valor de realização de R$ 520 milR$ 800.000− R$ 280.000
Passivos trabalhistas prováveis sem provisão (CPC 25)—− R$ 97.250
Software customizado que a empresa não usa maisR$ 61.800− R$ 61.800
Total dos ajustes− R$ 439.050

Metade desse ajuste corresponde à participação do sócio retirante: R$ 219.525.

Mais de um terço do valor original, pago pelo sócio que fica, para cobrir um patrimônio que a empresa não tem.

O que uma análise pericial examina

Um laudo de apuração de haveres não começa pelo patrimônio líquido. Começa pelos ativos, um por um. Eu começo pelos equipamentos: o valor registrado é recuperável? Alguém já fez teste de vida útil real? Depois vou para os intangíveis, e por fim para os passivos que não estão no balanço.

Se você está num processo de dissolução e o balanço de determinação já foi apresentado, me escreva. Eu olho esse tipo de coisa.

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